A modernidade chegou aos nossos terreiros e com ela, o pior de nós mesmos é vergonhosamente exposto.

Precisamos falar de algo muito singular e que é uma realidade em muitas casas de culto. Historicamente, as religiões de Matriz Africana no Brasil, trazem consigo algumas práticas culturais que estiveram presentes no berço de nossa história.

No início do período escravagista, o abuso de autoridade, a exploração moral, física e financeira eram práticas comuns realizadas pelo branco contra o negro. (O que hoje ainda existe, embora de maneiras diferentes). Com o passar dos anos e com o advindo das religiões de Matriz Africana que nasceram no Brasil, parece que algumas dessas condutas foram impressas em posturas até hoje perduradas por muitos adeptos e sacerdotes.

Não é incomum nos depararmos com relatos de exploração financeira, segregação moral e tortura dentro de casas de culto, onde vale mais, quem sabe mais,(ou quem finge que sabe, cria e mente melhor), quem tem mais tempo de iniciação ou mostra resultados que despertam a cobiça da “confortável” vida moderna.

O respeito e a submissão que simbolizam o “despir” do corpo e da alma para a vaidade do mundo, a entrega nas mãos do outro, que simbolizam a confiança e responsabilidade que cada um de nós tem dentro de nossos cultos, deram espaço a vaidade, a humilhação e a falta de empatia com o sofrimento do próximo. “Selfies” com orixás, “lives” de cultos, grupos de adeptos impondo regras, acreditando serem os paladinos da preservação de um conhecimento que nem mesmo eles têm, se proliferam a cada dia.

A modernidade chegou aos nossos terreiros e com ela, o pior de nós mesmos é vergonhosamente exposto. Sacerdotes paramentados com jóias provenientes da exploração diária de seus “filhos”, dão uma falsa, ilusória e discrepante conotação de prosperidade. Passamos a reproduzir o mesmo tipo de exploração que esteve presente no berço de nossa existência.

Os chamados segredos de axé que nada mais eram do que uma ferramenta de preservação e identidade litúrgica em meio as perseguições da época, perderam seu sentido, dando origem a práticas ambiciosas, na demanda cada vez mais crescente de busca de conhecimento, venda por ensinamentos, rituais e práticas de culto. Há de tudo. Desde invenções de rituais e entidades que sequer existiram, a sacerdotes de casas tradicionais com condutas reprováveis, aproveitando-se da pobreza e fé alheia, se auto afirmando como os únicos “descobridores da pólvora”, detentores de algo que nem eles mesmos sabem o significado, além de repetir (com a inocência comum a papagaios), aquilo que superficialmente um dia (quem sabe), foram capazes de ouvir corretamente.

Princípios de convívio em comunidade, que nasceram talvez numa tentativa desesperada de resistir e sobreviver as investidas de um Brasil que nascia sob a luz do preconceito, da segregação e intolerância religiosa, perderam suas identidades. As ideologias de que numa casa de culto “tudo pertence ao seu axé e que sempre que possível devemos partilhar o que temos entre nossos irmãos”, deu lugar a práticas criminosas de exploração, enriquecendo e sustentando luxos de sacerdotes, num movimento cíclico de promoção nas redes sociais por aqueles que reproduzindo um efeito de mimetismo, “rezam suas cartilhas”, os enaltecendo como se suas vidas se realizassem a partir disso.

Em tempos de crise, há ainda aqueles que dão origem a uma verdadeira: “corrida pelo ouro”, onde casas de culto se profissionalizam na execução de “projetos sociais”, concorrendo a editais públicos, sob um discurso de valorização de protagonismo, afirmação e identidade religiosa, mas ao invés disso, o que se vê, são: claras tentativas de autopromoção com objetivo financeiro, intervenções de cunho político, busca de mais “clientes”, promoção de seus terreiros e acúmulo de recursos. Esperemos que se um dia, nossos netos nos perguntarem o que foram as religiões de matrizes africanas no Brasil, não precisemos dizer que foi algo que resistiu a perseguição de outras vertentes religiosas e que teve fim pela exploração, vaidade, cobiça, desrespeito pelo ser humano e por nossos Deuses, praticados por nós mesmos.

Por – Flávio Duncan

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Matriz Africana

Movimento político de união e acolhimento "Matriz Africana", que visa agregar, unir, acolher, conectar e informar a todos os adeptos de religiões de Matriz Africana de forma que se possa empoderar, garantir direitos e proteger a liberdade de culto e os povos de axé. Aqui se troca conhecimento, informação e apoio.