Além da homenagem, projeto do Instituto Axé Brazil promove empoderamento e educação financeira

A “Flor Camélia” é considerada o símbolo mais precioso do movimento abolicionista e foi o ícone utilizado para homenagear 32 autoridades de Matriz Africana do Rio Grande do Sul. Na noite dessa quinta-feira (5), o Instituto de Desenvolvimento Autônomo Axé Brazil concedeu o Prêmio Camélia, homenageando eles que resistem ao longo do tempo e se destacam na luta pela igualdade e, ao mesmo tempo, integrando os povos de terreiro em um projeto de economia local e educação financeira. Realizada na Umov.me Arena, em Porto Alegre (RS), a premiação destacou a contribuição dos homenageados para o empoderamento, valorização e reconhecimento dos povos tradicionais de Matriz Africana na reprodução de sua cultura, saberes e valores civilizatórios.

Os homenageados e homenageadas foram: Pai Humberto D’Bara, Pai Jajá D’Bara, Pai Juarez do Bará Lanã, Pai Marquinhos D’Bara, Pai Dejair de Ogum, Mãe Eurides de Ogum, Mãe Ieda de Ogum, Mãe Nara de Ogum, Pai Paulinho de Ogum Xoroquê, Mãe Magda de Oya, Mãe Raquel de Iansã, Pai Raul de Xango, Pai Ruy de Xango, Pai Sidnei de Xango, Mãe Jaque D’Ossanha, Pai Ricardo de Xapana, Pai beto de Oxum, Pai Carlinho de Oxum, Pai Dinarte de Oxum, Mãe Inaya de Oxum, Mãe Nicoly de Oxum, Pai Pedro de Oxum Docô, Mãe Solange de Oxum Miua, Pai Alexandre de Oxala, Baba Diba de Iemanjá, Mãe Nilza de Iemanjá, Mãe Paula de Iemanjá, Pai Rudy de Iemanjá, Pai Alexandre de Oxala, Pai Edinho de Oxala, Pai Jaime de Oxala e Pai Marcelo de Oxalá.

Baba Diba de Iemanjá se diz lisonjeado. “O prêmio Camélia é um reconhecimento de toda a luta social e de empoderamento que a gente faz”, diz. O caráter de inclusão econômica também é destacado por ele. “Nosso povo sofre com o racismo comercial, porque nem todos os espaços têm os produtos e, quando têm, são superavaliados. O Axe Brazil não é um projeto individual, é uma iniciativa maravilhosa. No nosso processo de empoderamento político, estava faltando a parte financeira. A maioria dos babalorixás e ialorixás estava morrendo na miséria e as vezes não tinha dinheiro nem para seu ritos fúnebres. O projeto traz, por exemplo, essa ideia do seguro funeral, que vai nos dar essa garantia”.

Junto da homenagem, foi realizada a apresentação do Instituto de Desenvolvimento Autônomo Axé Brazil, que trabalha a partir da premissa do desenvolvimento econômico das pessoas em seus territórios, com recorte educacional. O projeto articula parceiros com a premissa do desenvolvimento local, agricultura familiar e sustentabilidade, oferecendo linha de crédito baseada no aval solidário. Entre as ações, está a criação de um cartão de crédito que dá descontos em diversos empreendimentos, com taxas de juros reduzidas nos estabelecimentos credenciados.

Conforme Mãe Bia da Ilha, que compõe o instituto, a iniciativa começa com os povos de matriz africana, mas logo será ampliada para as comunidades. Ela ressalta que o projeto oferece algo diferente: “Vem com um pacote de oportunidade de aprendizados, como por exemplo as oficinas de educação financeira que vamos ministrar. É inovador porque ajuda as pessoas, o nosso povo, faz com que se compreenda mais o que é esse mundo, levando o entendimento do que cada um é capaz de fazer, isto é, não se endividar, mas ter a capacidade de guardar”.

Baba Luciano de Oxalá conta que o projeto Axé Brazil usa ferramentas da economia tradicional, como cartão de crédito, plataformas digitais, “instrumentos e ferramentas que eram usados para exploração mas são usados agora numa perspectiva solidária, de compartilhamento” Isso gera renda e trabalho para além do sagrado. “Os povos de matriz africana cumprem papel muito além do sagrado, como geração de trabalho, saúde e acolhimento com as pessoas mais pobres”, aponta.

Ainda segundo ele, o atual momento de crise política no país reforça a necessidade da autonomia. “Os povos de matriz africana aprenderam desde sempre, estamos acostumados a não ter auxilio do Estado para nada. Então fomos nos estruturando com parceiros da iniciativa privada, parceiros da universidade, com movimentos sociais, construindo uma alternativa autônoma capaz de dar conta e de potencializar o desenvolvimento para resistir. Nosso nome é resistência. Há 500 anos, desde quando chegou o primeiro navio negreiro aqui, já estamos resistindo”, conclui.

Durante a entrega do Prêmio Camélia, foram realizados cantigos tradicionais dos povos de Matriz Africana. Estiveram presentes apoiadores do projeto e convidados dos homenageados. Ao final, foi servido um coquetel.

Fonte: Brasil de Fato

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Matriz Africana

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