Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE-2010), 76,7% dos paraenses entrevistados se declararam pretos ou pardos e, apesar dos números revelarem um estado com população predominantemente de matriz africana, o racismo ainda é uma barreira que impede o preto paraense de ter acesso a direitos, como por exemplo, a viver”.

A declaração forte, impactante, mas real foi feita nesta terça-feira, 27, pela doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Flávia Câmara, durante o papo-cabeça da 23ª Feira Pan-Amazônica do livro, que ocorre até o próximo dia 1º no Hangar, em Belém.

O debate, que lotou o Espaço Multivozes do Hangar com estudantes de escolas públicas e particulares, é um ambiente de diálogo com e entre jovens, e teve como tema “Ancestralidade e Tecnologia: instrumentos de representatividade e transformação social”.

O papo-cabeça abriu a programação do dia na feira, que nesta terça-feira foi totalmente dedicada às vozes afro-brasileiras. De acordo com Flávia Câmara, o jovem negro lidera as estatísticas por mortes violentas e a mulher negra, os números de feminicídio em todo o Brasil.

Espaço Multivozes ficou lotadoFoto: Paulo FavachoFlávia Câmara reforçou sua tese científica para a plateia, relatando que o conceito de raça no Brasil não é uma questão biológica, mas uma construção social ideológica para transformar as diferenças biológicas em desigualdades sociais, institucionalizada pelo Estado ao longo dos anos. “Um exemplo bem próximo deste evento é que somente depois de 23 edições que uma mulher negra foi homenageada nesta Feira do Livro. Zélia Amador tem um longo histórico de vida acadêmica, militância nas questões afro-brasileiras, de luta pela implantação das cotas dentro das universidades. Será que não há intelectuais negras que mereçam ser homenageadas?”, questionou, completando que o racismo impede o reconhecimento dos saberes populares, como da senhora do ver-o-peso.

A escritora Zélia Amador de Melo foi a autora escolhida, junto com Paes Loureiro, para ser a grande homenageada da 23ª Feira PAn-Amazônica do Livro e das Multivozes.

Para homenagear a cultura afro-brasileira, durante o papo-cabeça houve, ainda, performances de música e dança da matriz africana. A pedagoga Sílvia  Resenha, pedagoga do Sistema de Ensino  Lima Pinheiro, de Ananindeua, que levou cerca de 120 estudantes para a feira, destacou que a participação das turmas no papo-cabeça surpreendeu a todos, “com a história contada de forma dinâmica, fora do livro, foram utilizados recursos como  memes, uma linguagem jovem e eles se interessam muito. Uma verdadeira aula sobre ancestralidade e a nossa matriz africana”, disse.

Performances de música e dança de matriz africana também fizeram parte da programação Foto: Paulo Favacho

Umas das performances que chamou muito atenção dos participantes foi a dança do ritual da fertilidade da cultura africana. Mateus Gonçalves de Souza, 13 anos, do 9º ano do Ensino Fundamental da Escola Lima Pinheiro, sentiu muito orgulho de compartilhar com seus colegas um pouco da sua cultura e tradição. “Eu sou de uma religião africana, do Cadomblé, filho de Assíria de Oyá, negro com muito orgulho da minha ancestralidade e foi muito bom que os colegas da minha escola pudessem ter essa aula sobre a importância do respeito às nossas raízes”, disse.

Serviço:

A 23ª Feira Pan-Amazônica e das Multivozes funciona das 10h às 22h. Entrada franca. 

FONTE: Agencia Pará

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Matriz Africana

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