Quem nunca deu de cara com aquela farofa na encruzilhada não é um “brasileiro raiz’. Mas apesar de já fazer parte da cultura nacional, a galera insiste em chamar oferenda de macumba, o que para os cultos afros é completa ignorância. Para mostrar que só a desinformação tem de dar medo, o Instituto Sociocultural de Matriz Africana Iiê Axé Taquarussu, abriu as portas do terreiro ao Lado B e até ensinou a gente a garantir uma entrega para o santo com muita farinha e cachaça.

O babalorixá Robson Faciroli começa dizendo que desta vez vamos falar com Exú. “É um ritual comum para orixá Exú, que é o guardião das estradas, do caminho, louvamos na rua. Quando jogamos farinha na rua é uma reverência”, diz.

Sem tabu, ele desmistifica o que a ignorância fez chamar de “coisa do capeta”. “Não cultuamos o demônio. O Exú é um mensageiro do Àiyé (que é o físico, a terra) e Orun (lado espiritual). Ele alterna entre o plano astral e o físico, nos protege, avisa, orienta se é algo bom ou ruim e leva a nossa mensagem à orixá. Trabalhamos apenas com energia”.

No terreiro com seus filhos e ogans, ele prepara às oferendas com farinha, mel, água e cachaça para entregar na encruzilhada. “O ritual é para Exú nos livrar do inimigo oculto e declarado, dos acidentes. Pedimos que abençoe nosso caminho. Na entrega cantamos para louvar”.

Robson Faciroli é o babalorixá do Instituto Sociocultural de Matriz Africana Iiê Axé Taquarussu (Foto: Paulo Francis)
Robson Faciroli é o babalorixá do Instituto Sociocultural de Matriz Africana Iiê Axé Taquarussu (Foto: Paulo Francis)

 A “entrega” começa em frente ao portão, feita geralmente nas segundas-feiras. Nesse caso, a oferenda é preparada no domingo e adormece no assentamento de Exú, um quarto onde fica a imagem ou assentamentos de culto da entidade. Na manhã do dia seguinte, após acordar, o babalorixá joga a farinha na calçada. “Ela representa a terra, e misturamos com o Epo pupá, que é o azeite de dendê. Acrescentamos o mel, a cachaça e a água. Esses são os quatro elementos que usamos, e quando misturados, representam a terra e a prosperidade que advém dela. Jogamos a farinha e espargimos a água na rua”.

Sobre a cachaça, o babalorixá diz que é outra forma de agradar a entidade. “O Exú toma a cachaça forte, damos a água ardente”.

“Tanto no Candomblé quanto na Umbanda cultuamos a natureza. A água, folha, terra são sagradas. Fazemos trabalhos nas matas, cachoeiras e encruzilhadas. Contudo, algumas pessoas sem propriedade de causa e despreparadas, têm o mal costume de fazer despachos que as pessoas retribuem a nós.”

Fonte: Campo Grande News

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Matriz Africana

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