O Encontro com Iemanjá, em sua 61ª edição neste sábado (17) em Belo Horizonte, terá um motivo especial. Neste ano, a celebração, que deverá reunir 130 terreiros de umbanda e candomblé, será sob a expectativa pela conquista do título de patrimônio imaterial da cultura belo-horizontina. A próxima reunião do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural, no mês que vem, deverá confirmar o reconhecimento. A decisão depende do voto de oito representantes do poder público e de outros oito membros da sociedade civil.

Atualmente, cerca de 3.000 terreiros reúnem povos de tradição africana na região metropolitana da capital, segundo Ricardo Moura, que há 16 anos está à frente da Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente, no bairro Lagoinha, na região Nordeste de Belo Horizonte. “Ter esse reconhecimento é importante por assegurar uma visibilidade, por chancelar a nossa importância na composição da identidade dessa cidade e por oficializar uma história que correu à margem”, defende ele.

Para Alan Pires, técnico da Diretoria de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura, a concessão do título é um sinal do reconhecimento do poder público em relação ao papel fundamental do povo negro para a construção da identidade belo-horizontina. “Essa é uma forma de reescrever essa história e afirmar a contribuição da população negra para a construção da capital”, diz.

A celebração da Festa de Iemanjá será na orla da lagoa da Pampulha. Os festejos vão começar com concentração e carreata saindo da praça da Estação, no centro da capital, às 17h, em direção à Pampulha. As festividades são abertas ao públicos e ficarão concentradas na praça Alberto Dalva Simão, em frente à estátua de Iemanjá, a partir das 18h30.

Preconceito

De acordo com levantamento do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, entre os anos de 2016 e 2018 foram registrados quase 450 ataques contra religiões de matrizes africanas em todo o país. Para o pai Ricardo, portanto, o reconhecimento funciona também como uma “salvaguarda para que as festividades continuem acontecendo”.

Historicamente, “essas celebrações dos povos tradicionais se desenvolveram de forma muito doméstica, pois, sempre que havia a expressão dessa fé em espaço público, havia uma reação preconceituosa”, observa o antropólogo Rafael Barros, membro do Centro de Estudo da Religião Pierre Sanchis, da UFMG. “No imaginário popular, essas festas, rituais e oferendas estavam ligadas a algo de maléfico”, define.

Para ele, o registro que pode ser concedido em breve pela prefeitura tem como maior apelo a potência de fazer perpetuar essas atividades ao longo dos anos.

Década de 80 foi marco para as religiões

Iniciativas da Associação de Umbanda e Candomblé do Estado de Minas Gerais fizeram da década de 80 o primeiro marco do reconhecimento das religiões de matriz africana na cidade. Em 1982, por exemplo, foram inaugurados o Monumento a Iemanjá, à margem da lagoa da Pampulha, e a praça 13 de Maio, no bairro Silveira, na região Nordeste, que no ano seguinte ganhou uma escultura de Preto Velho.

O ano de 1995 também foi importante para a comunidade. Nele, a Irmandade Nossa Senhora do Rosário do Jatobá e o Ilê Wopo Olojukan foram reconhecidos como patrimônio cultural. Já em 2017, foi a vez de os quilombos Luízes, Mangueiras e Manzo Ngunzo Kaiango obterem o registro.

Candidatura

Além da Festa de Iemanjá, a expectativa é que o título de patrimônio imaterial seja concedido também à Festa do Preto Velho, que acontece há 43 anos na capital. Um estudo histórico e antropológico constituiu um dossiê que investiga a relevância dessas celebrações para a capital mineira.

Doações

A Festa de Iemanjá, por exemplo, busca conseguir até duas toneladas de alimentos não perecíveis, a serem doados a instituições. Quem quiser fazer as doações pode levá-las neste sábado, na Pampulha. O lugar onde o festejo acontece passa por limpeza antes e depois da celebração.

FONTE: JORNAL O TEMPO

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Matriz Africana

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