“Usa calcinha também?” é o que o ator Leno Sacramento, 43 anos, escuta toda vez que usa kilt, saia escocesa que adora. “Adoro unha pintada e argolas, mas não posso usar por causa dessa masculinidade tóxica, do machismo. É essa sociedade, que leva as pessoas ao suicídio, que a gente vai abordar”, explica o ator formado no Bando de Teatro Olodum sobre seu novo espetáculo, Nas Encruza, que estreia temporada neste sábado (3), no Teatro Vila Velha.

Escrita assim mesmo, como se fala região onde mora, Nas Encruza é a segunda peça da trilogia que teve início com En(cruz)ilhada. Com direção de Roquildes Júnior, o espetáculo fala sobre homofobia, o genocídio dos jovens gays, o suicídio e a intolerância religiosa, “que não é religiosa, mas racial, porque só estamos sendo intolerantes à de matriz africana”, critica Leno. Além disso, o ator mostra “como a língua e o olhar matam mais do que a própria bala”. “A gente fala de mortes psicológicas, sociais, estéticas”, explica.

Além de planejar para o futuro uma temporada em dose dupla com os dois primeiros espetáculos, Leno anuncia que está escrevendo o terceiro, que envolve uma mulher negra.

“Depois do tiro, desse incidente, dessa confusão – que não é confusão, é questão de pele mesmo -, eu descobri que não podia parar”, justifica o ator que foi baleado em uma abordagem policial na Avenida Sete de Setembro, em junho do ano passado, após ser confundido com um assaltante.

O fato aconteceu quando Leno estava em cartaz com En(cruz)ilhada, que debate o racismo institucional e as mortes simbólicas do negro na sociedade. “Depois que fiquei vivo, descobri que tinha uma missão: precisava mostrar em comunidades, terreiros, escolas, que a questão é um governo que autoriza atirar nos pretos”, critica. “Esse espetáculo passou a ser um ato político”, conclui.

FONTE: CORREIO 24H

Written by

Matriz Africana

Movimento político de união e acolhimento "Matriz Africana", que visa agregar, unir, acolher, conectar e informar a todos os adeptos de religiões de Matriz Africana de forma que se possa empoderar, garantir direitos e proteger a liberdade de culto e os povos de axé. Aqui se troca conhecimento, informação e apoio.